Mostrando postagens com marcador Filosofia da História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filosofia da História. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de junho de 2019

A ESCOLA METÓDICA RANKEANA E O POSITIVISMO - PARTE I


A ESCOLA METÓDICA RANKEANA E O POSITIVISMO - PARTE I


CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Resolvi dividir a postagem atual em duas partes por três motivos: 
- deixar a postagem mais "enxuta", visando não espantar tanto quem se desanima rapidamente com textos mais longos; 
- a "Sexta Exigência" exige um maior esforço, digamos, filosófico e creio que uma sensibilidade histórica um pouco mais apurada. Por conta desses, a Sexta Exigência demandou um texto maior; 
- dar mais tempo para eu pensar sobre uma próxima postagem que, provavelmente, será ainda sobre Filosofia da História. 

INTRODUÇÃO

Leopold von Ranke (1795 - 1886)
Pode-se afirmar que a Escola Metódica Rankeana se baseou no que foi estabelecido no texto "O CONCEITO DE HISTÓRIA UNIVERSAL"[1] de Leopold von Ranke, escrito em 1831.  Nesse texto, Ranke estabelece o modo de como o historiador deveria se comportar diante do seu objeto de pesquisa.  Para tanto, o historiador alemão  estabeleceu não só princípios formais: como o uso de uma metodologia e de normas;  Ranke também se preocupou com princípios morais e até mesmo estéticos que deveriam nortear o trabalho do historiador. 
O texto "O conceito de história universal" [2] mostra claramente seis exigências que deveriam nortear a pesquisa histórica.  Todavia, além dessas seis exigências há, também, duas espécies de princípios que norteiam, estruturam e fundamentam essas exigências.  O primeiro princípio é de que a pesquisa histórica tanto será melhor quanto mais equilibrada for a relação entre os elementos concretos e os elementos abstratos que cercam o fenômeno histórico.  O segundo princípio parte da ideia controversa de que a História é uma arte.  Pedagogicamente, é mais frutífero explicar o primeiro princípio antes de mostrar as seis exigências estabelecidas por Ranke para a pesquisa histórica;  depois de apresentadas as exigências, fica mais simples entender o porquê de Ranke considerar a História como sendo uma arte. [3]
A partir do primeiro princípio, há a rejeição da ideia de que a pesquisa histórica deva voltar-se somente para a busca de algum princípio abstrato mais elevado e que supostamente subsistiria ao fenômeno histórico,  o qual está baseado na concretude da documentação.  O estabelecimento de algum princípio abstrato na pesquisa histórica incorreria em dois problemas:  o perigo de se transformar a História numa Filosofia da História a la Hegel [4], contaminada com elementos teleológicos  e de deixar o discurso histórico totalmente à mercê das especulações do historiador, o que poderia cair numa espécie de ficção.  Ranke sempre insiste que o historiador deve dedicar seus esforços àquilo que é concreto, em outras palavras, às fontes documentais oficiais, na visão dele. Hegel (1770 - 1831)

Com o primeiro princípio, ou o princípio do equilíbrio na cabeça, pode-se agora passar para as seis exigências da pesquisa histórica estabelecidas por Ranke. 

PRIMEIRA EXIGÊNCIA 
O historiador deve amar a verdade. Na medida em que o historiador reconhece a importância de determinado evento histórico, seja ele mais ligado a um acontecimento ou a um indivíduo, o historiador adquire uma consideração elevada por aquilo que aconteceu, se passou, se manifestou. Esse amor leva fortemente em conta o princípio do equilíbrio, pois o historiador deve equilibrar os elementos objetivos - por exemplo, o "quando" e o "onde" - com a sua imaginação. Todavia, o uso da imaginação sem amarras trabalha contra a verdade histórica, pois somente o uso da imaginação acaba por reconhecer apenas o reflexo das teorias e das idiossincrasias do historiador. Somente o uso da imaginação faz com que a História caia numa espécie de ficção.

SEGUNDA EXIGÊNCIA 
O historiador deve fazer uma investigação documental pormenorizada e aprofundada. Ranke separa essa investigação em dois níveis. No primeiro nível, o historiador deve se dedicar ao fato histórico, ou seja, ele deve ser capaz de explicar as condições de aparecimento deste fato e o seu contexto. No segundo nível, o historiador deve ser capaz de perceber a formação espiritual do fato histórico. Essa percepção se baseia na harmonia das leis que atuariam no espírito do historiador e também por meio do objeto que é analisado. Para Ranke, a alma coletiva baseia-se na harmonia do indivíduo. O entendimento dessa alma coletiva tanto será melhor quanto mais o historiador praticar a imparcialidade.
­­­­­­­­­­­­­­­­­­
TERCEIRA EXIGÊNCIA 
O historiador deve ter um interesse universal. Ranke critica os historiadores que possuem interesses parciais ou específicos, como, por exemplo, historiadores que só pesquisam as instituições  burguesas, historiadores que pesquisam apenas os avanços da ciência ou das realizações artísticas, ou mesmo aqueles que só se interessam por História Política. Para o historiador alemão, todos os campos da história estão na verdade essencialmente interligados. Saber perceber como a religião pode influenciar a política, por exemplo, faz parte dessa sensibilidade universal que o historiador deve possuir. A base dessa universalidade está no treinamento de imparcialidade do historiador. A imparcialidade favorece o entendimento da alma coletiva. Nesse sentido, a imparcialidade rankeana não significa falta de interesse, ela significa um interesse no conhecimento puro e universal, o qual não é turvado por opiniões preconcebidas ou por demais provincianas. 

QUARTA EXIGÊNCIA 
Os eventos históricos possuem uma fundamentação baseada no nexo causal. O nexo causal está relacionado a duas outras ideias: eventos simultâneos se influenciam mutuamente e o evento histórico precedente condiciona o evento posterior. Assim, há uma relação íntima de causa e efeito. Para Ranke, estudar a História por meio de relações de causa e efeito denomina-se pragmática.
Ranke critica a pragmática moderna por ela assentar as causas históricas em basicamente dois desejos humanos: o egoísmo e a ambição de poder. Ele nega que esses desejos sejam as únicas causas dos acontecimentos humanos. 
A pragmática rankeana está baseada na documentação de informações verdadeiras, as quais mostrarão as verdadeiras razões que causaram determinado evento histórico. Quanto mais documentada, exata, produtiva a investigação, mais livremente a arte do historiador é capaz de se movimentar. Nesse sentido, a teoria rankeana faz uma relação estreita entre documento e verdade, a qual serve como fundamento para a pesquisa histórica. O pragmatismo rankeano é documental.

QUINTA EXIGÊNCIA 
O historiador deve exercer o apartidarismo. O apartidarismo está relacionado, entre outros, com a ideia de que o estudo da história universal possui, digamos assim, dois senhores: o senhor do presente e o senhor do passado. Ranke reconhece que é muito difícil para o historiador se manter apartidário, no sentido de tentar ver ou perceber a verdade das disputas de um ponto de vista equidistante entre duas opiniões opostas, ainda mais que o historiador está fortemente influenciado pelo espírito da sua época. Ranke acredita que o bom historiador seja capaz de perceber a essência dos elementos em conflito, ou seja, que o historiador é capaz de desconsiderar valores próprios quando esses não são úteis para a explicação histórica.


REFERÊNCIAS E RECOMENDAÇÕES

[1] Com relação a essa obra, atualmente não há traduções em Português minimamente acessíveis. Por isso, recomendo a edição com a tradução para a língua inglesa. 

[2] Para uma perspectiva mais contextualizada da obra de Ranke, recomendo a obra "Teoria da história Vol. II" de autoria de  José D'Assunção de Barros. Importante ressaltar que comumente Ranke é percebido como um historiador positivista. Mas essa aproximação com os ideais positivistas merece muitos cuidados. 
BARROS, José D'Assunção de. Teoria da história Vol. II: Os primeiros paradigmas: positivismo e historicismo. Editora Vozes, 2014. 

[3] Outra obra interessante de consulta do pensamento de Ranke, é o livro do professor  Estevão de Rezende Martins. O professor Estevão Martins foi meu professor, entre outros, de Teoria da História na UnB. 
MARTINS, E.R.História pensada: teoria e método da historiografia europeia do século XIX.  São Paulo: Editora Contexto, 2015. 

[4] Não há como falar de Filosofia da História sem citar a obra "Filosofia da História" do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. 
HEGEL, Georg W.F. Filosofia da História. Brasília: Editora UnB, 1996. 




























sábado, 23 de março de 2019

HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS: RELAÇÕES E CONFLITOS (uma brevíssima introdução!)


Inicialmente, pode-se arriscar que as diferenças substantivas entre o trabalho do historiador e do cientista social  se encontram na origem, ou seja, no aparecimento da história e das assim chamadas ciências sociais, notadamente a Sociologia, a Antropologia, a Ciência Política e a Economia.
Busto de Heródoto
A História aparece na Grécia Antiga com Heródoto e Tucídides, no século quinto antes da era cristã.  Desse modo, a História aparece num mundo pré-cristão, num mundo pré-capitalista,  num mundo dominado pela cultura helênica, num mundo em que o pensamento filosófico começava a dar os seus primeiros passos.  Ou seja, um mundo bem diferente do nosso mundo contemporâneo,  profundamente marcado pelo pensamento medieval cristão e pelo cogito cartesiano na modernidade.
Sir Isaac Newton
Pintura de Lindsey Gray - acrílico sobre tela
 Utilizando a Sociologia como referência, as ciências sociais aparecem num mundo pós-cristão, capitalista, dominado pela cultura européia  e assombrado com a Revolução Científica, guiada por nomes como Copérnico, GALILEU GALILEI e Newton.  A Revolução Científica na modernidade influenciará não só as Ciências Naturais, essa revolução influenciará, por meio do método científico, as ciências sociais ainda nascentes. 
O sucesso da Física,  tomada na modernidade como exemplo de pensamento científico,  ressaltou o interesse por parte dos primeiros cientistas sociais com relação à ideia de universalidade e com relação ao método dedutivo.  Com relação à universalidade, não se quer afirmar que não existisse essa preocupação no mundo grego antigo.  Todavia, a ideia de universalidade do mundo antigo era certamente menor do que a do mundo moderno, pois, entre outros, o conhecimento do mundo era menor em vários sentidos.  Essa "menor universalidade" do mundo antigo pode ser percebida no sentido geográfico, no sentido cosmológico, no sentido do que poderíamos chamar de psicologia humana, entre outros. 
 Disso tudo, podemos ensaiar conceitos, ainda que superficiais, do que é a História e do que é a Sociologia; esses conceitos estão fincados no ambiente cultural em que nasceram essas disciplinas.  A Sociologia pode ser definida como o estudo da sociedade humana, com ênfase em generalizações sobre sua estrutura e desenvolvimento.  A História é mais bem definida como o estudo de sociedades humanas, ou culturas, no plural, destacando as diferenças entre elas e as mudanças ocorridas em cada uma com o passar do tempo. 
Pelas definições acima, não é forçoso inferir que a História possui um caráter mais particularista do que a Sociologia.  Todavia, esse profundo particularismo histórico mostra que a História e a Sociologia são coisas realmente diferentes, mas não necessariamente contraditórias.  Assim, talvez seja melhor tratar essas duas disciplinas como sendo complementares. 
O particularismo histórico está relacionado com a super-especialização do historiador em determinado lugar de determinada época.  Essa super-especialização pode levar o historiador a considerar o lugar pesquisado como sendo a sua "paróquia", ou seja, um lugar completamente único,  fechando os olhos para a ideia de que esse mesmo lugar  também é uma combinação única de elementos que, individualmente, possui paralelos em outros lugares.  Os teóricos sociais - agora, não só falando da Sociologia - demonstram esse espírito de paróquia em um sentido menos óbvio.  O paroquialismo dos cientistas sociais está mais relacionado com o tratamento que é dado ao tempo.  Os cientistas sociais possuem a mania de generalizar sobre a sociedade com base apenas na experiência contemporânea, ou discutem a mudança social sem levar em conta os processos históricos de longo prazo, os quais, muitas vezes, estão carregados de sutilezas e de detalhes que não interessam aos cientistas sociais. 
Por conta desses "paroquialismos", os historiadores costumam considerar, mais comumente nas fofocas de corredor, os cientistas sociais como pessoas que não possuem nenhum sentido de lugar e de tempo, pessoas que reduzem o indivíduo à categorias rígidas que desrespeitam as individualidades e, o pior de tudo, os cientistas sociais consideram sua atividade como sendo científica.  Os cientistas sociais, por sua vez, costumam considerar os historiadores como meros coletores de fatos, sem nenhuma capacidade de analisar as bases de dados exaustivamente pesquisadas  em prol de uma teoria mais ampla; ou seja, para os sociólogos, os historiadores possuem realmente uma mentalidade paroquial ou provinciana. 
 Além do "paroquialismo", o treinamento acadêmico também fornece combustível para os conflitos entre historiadores e cientistas sociais.  Os historiadores são treinados em dar atenção a detalhes concretos em detrimento de padrões gerais. Por outro lado, os cientistas sociais são treinados para observar ou formular regras gerais e, muitas vezes,  analisar e rejeitar as exceções.  Nesse sentido, os historiadores são muito mais abertos a casos excêntricos e às exceções do que os cientistas sociais. 
Na virada do século XIX para o século XX, a tensão entre historiadores e cientistas sociais pôde ser nitidamente constatada.  Nessa época, vários historiadores se afastaram não só da teoria social, como também se afastaram da História Social,  considerando esses objetos de estudo pouco dignos.  Esse afastamento tem um nome: Leopold von Ranke.  Importante afirmar que Ranke não rejeitava completamente a história social; todavia, seu trabalho como historiador se concentrava na figura do Estado, a qual só poderia ser devidamente abordado pela História Política.  Mas, por que a História Política ganhou força no final do século XIX?  A resposta para essa pergunta possui, pelo menos, dois aspectos. 
 Primeiro aspecto.  No século XIX, os governos europeus começaram a considerar a história como um instrumento para a promoção da unidade nacional, um instrumento para educar e formar cidadãos.  O tipo de história, suponha-se, que melhor se adequava para se fazer uma propaganda estatal é, naturalmente, a História do Estado, inserida na História Política.  Os vínculos entre os historiadores e o governo estatal eram bastante fortes, por exemplo, na Alemanha, onde Ranke nasceu. 
 Segundo aspecto.  A evolução histórica associada a Ranke era sobretudo uma revolução nas fontes e nos métodos, que deixavam de usar as histórias mais antigas ou "crônicas", substituindo-as pelos registros oficiais do governo.  Os historiadores começaram a trabalhar regularmente nos arquivos e elaboraram uma série de técnicas cada vez mais sofisticadas para avaliar a confiabilidade dos documentos que encontravam nos registros do governo.  A produção de uma "História Oficial" criou a sensação de que esse tipo de história é mais objetiva e científica do que a História feita anteriormente, sem esse carimbo de "documento oficial".  Essa sensação foi reforçada porque o aparecimento de institutos de pesquisa, de revistas especializadas e mesmo a estruturação dos departamentos de História nas universidades se deveu, em grande medida,  ao repasse de verbas governamentais que estimulavam o estudo da História Política. 
Nesse sentido, o trabalho dos historiadores sociais parecia não ser tão sério ou profissional se comparado com o trabalho dos historiadores da Escola Metódica Rankeana. Na verdade, a História Social era considerada uma espécie de sobra da verdadeira história: a História Política baseada no Estado. Assim, História Social e História Política sofreram uma separação artificialmente radical. 
Para exemplificar tal cisão, podemos citar o caso do historiador J.R. Green que publicou a obra "SHORT HISTORY OF THE ENGLISH PEOPLE" em 1874. Nessa obra, Green se concentrou na vida cotidiana em detrimento de batalhas e tratados. Seu ex-professor, chamado E. A. Freeman, comentou, segundo dizem, que se Green tivesse excluído toda a "tralha social", o livro "Breve história do povo inglês" poderia ter sido um bom livro de história da Inglaterra. (Citado em Burke, 2012, p. 22). 
Essa cisão também atingiu os historiadores alemães e franceses. No ambiente alemão, a obra de Jacob Burckhardt, "Cultura do Renascimento na Itália" de 1860, hoje uma obra clássica, não obteve sucesso na época da publicação; esse insucesso pode estar relacionado ao fato de que Burkhardt utilizou mais fontes literárias do que registros oficiais. No mesmo ano, o historiador francês Numa Denis Fustel de Coulanges escreveu a obra "A cidade antiga". Coulanges também nutria grande interesse pela História Social. Essa obra, hoje também considerada um clássico, foi melhor recebida pelos seus pares franceses, se compararmos com a recepção da obra de Burckhardt pelos seus pares alemães. Todavia, o espírito rankeano não permitiu enxergar devidamente o alcance e a profundidade da obra de Coulanges.
Pode-se afirmar que a revolução histórica de Ranke aumentou o conflito entre historiadores e cientistas sociais. A escola metódica colocou no centro dos seus interesses a História Política tradicional, isso tornou o trabalho dos historiadores, do final do século XIX e início do século XX, mais limitado e até, em certo sentido, a escolha de temas se mostrou mais engessada. Interessante notar que a justificativa de vários historiadores para a rejeição da história social cambiava em dois pólos diversos: os rankeanos rejeitaram a História Social porque ela não poderia ser estudada cientificamente; paradoxalmente, outros historiadores repudiaram a Sociologia, por exemplo, pelo motivo oposto, ou seja, a Sociologia era entendida como sendo científica demais, no sentido de que era uma matéria abstrata e genérica, não respeitadora das particularidades dos personagens e eventos históricos.
Diferentemente dos historiadores com relação aos estudos sociais, quatro importantes teóricos sociais utilizaram fartamente a história em seus trabalhos: Alex de Tocqueville, Karl Marx, Adam Smith e Gustav Schmoller.

A obra "O antigo regime e a evolução" (1856) de Alex de Tocqueville foi um trabalho seminal de história com base em documentos originais, assim como um marco em teoria social e política. "O capital" de Marx e "A riqueza das nações" de Smith são obras que representam uma contribuição pioneira para a história e a teoria econômica; dentre os assuntos dessas duas obras estão a discussão da legislação trabalhista, a mudança do artesanato para os produtos manufaturados, a expropriação da classe camponesa, o aparecimento da burguesia, entre outros. Embora seja pouco conhecido no Brasil, Gustav Schmoller (1838 - 1917) foi um dos pioneiros na tentativa de unir História com o pensamento econômico. O autor alemão foi uma importante figura da assim chamada Escola Histórica de Economia Política; ele é mais conhecido como historiador do que como economista.
Esses quatro autores desenvolveram trabalhos relativamente raros em suas épocas. Eles combinaram teoria social com o interesse pelos detalhes das situações históricas concretas. Na segunda metade do século XIX, o mais comum era a preocupação com as tendências duradouras ou com o que pode ser chamado de "evolução social". 
Para entender o que significa essa evolução social, é necessário remontar esquematicamente o pensamento do francês  Auguste Comte. Para Comte, a verdadeira teoria social, ou Sociologia, não deveria se preocupar com os nomes dos indivíduos e nem com os nomes dos povos. Claramente, essa concepção está atrelada a uma Filosofia da História, no sentido em que o passado poderia ser estudado na forma de estágios que obedeceriam a certas leis da evolução histórica. No caso da Filosofia da História de Comte, essas leis apontariam para três eras: a era da religião, a era da metafísica e, finalmente, a era da ciência. O pensamento comteano influenciou o "método comparativo" que era considerado histórico, no sentido de colocar todas as sociedades em uma mesma escala evolucionária.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BURKE, Peter. História e teoria social. 3a ed. São Paulo: Editora Unesp, 2012. 



domingo, 24 de fevereiro de 2019

A FILOSOFIA DA HISTÓRIA EM WALTER BENJAMIN


Quando se fala das relações entre a escola de Frankfurt e a história, logo vem à cabeça a figura de Walter Benjamin. Isso se deve, pelo menos, a quatro fatores.
Walter Benjamin, Paris, 1938
             Foto de Gisèla Freund
Primeiro, Benjamin escreveu de fato um texto dedicado à filosofia da história; esse texto se intitula "Teses sobre a filosofia da história."
Segundo, o texto "Teses sobre a filosofia da história" é até hoje um dos textos mais influentes e comentados sobre filosofia e teoria da história.
Terceiro, o texto de Benjamin mistura de forma criativa e, muitas vezes, de forma inusitada elementos bem diferentes como: o romantismo alemão, o messianismo judeu, o marxismo e a psicanálise freudiana. Esse tipo de espírito "interdisciplinar" cai como uma luva para os propósitos da ESCOLA DOS ANNALES. Como sabido, essa escola francesa fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre, orientou boa parte das pesquisas em história do mundo ocidental e até hoje exerce forte influência no cenário de pesquisa dos historiadores.
Quarto, o carisma de Benjamin. A vida e a obra do pensador alemão inspiraram a rebeldia de vários estudantes e intelectuais inconformados, entre outros, com as injustiças do mundo capitalista [1], com a mentalidade burocrática do mundo acadêmico, com o historicismo.
Arte de Patrick Bremer 
https://www.patrickbremer.co.uk/


Notar que nessa ilustração também aparece a figura de Theodor W. Adorno,
colega de Benjamin na Escola de Frankfurt
Um dos elementos que reforça o "mito Benjamin" é a grande dificuldade de classificar o seu pensamento. Os teóricos da história estão acostumados a classificar as diferentes filosofias da história em alguns aspectos, como, por exemplo, se a explicação é de cunho objetivista ou subjetivista, se os acontecimentos são entendidos linearmente ou de forma cíclica, se o juízo de valor do historiador é conservador ou revolucionário. Walter Benjamin escapa profundamente e sutilmente a esses tipos de classificação. Ele é um crítico feroz da filosofia do progresso técnico, um adversário do marxismo progressista, um nostálgico do passado que sonha com o melhoramento humano, um defensor dos excluídos e perdedores da história. Assim, para melhor entender a teoria da história benjaminiana é necessário entendê-la em conjunto com os escritos de arte, filosofia, literatura e teologia, a fim de diminuir o pensamento deveras fragmentário do autor alemão.
Como anteriormente ressaltado, a filosofia da história de Benjamin bebe em, pelo menos, quatro fontes diferentes: o romantismo alemão, o messianismo judeu, o marxismo e a psicanálise freudiana. Importante ressaltar que a estruturação desses quatro elementos, aparentemente incompatíveis, não é uma mera "síntese". É, antes de tudo,  uma espécie de reinvenção desses elementos, criando uma teoria altamente original. 
Outra coisa a ser observada é que a expressão "filosofia da história" pode ser um tanto equívoca.
Não há, propriamente falando, um sistema filosófico no texto "teses sobre filosofia da história". Toda a reflexão benjaminiana nesse texto está assentada sobre a forma de ensaios ou fragmentos, com várias citações e passagens emolduradas de acordo com os interesses muito particulares do autor. Desse modo, qualquer tentativa de sistematizar as reflexões acerca da história em Benjamin são complexas, problemáticas e talvez sujeitas ao fracasso. Todavia, há algumas chaves no pensamento de Benjamin que podem ajudar a encaminhar, pelo menos inicialmente, o que Benjamim entende por história.
Uma primeira chave é entender que Benjamin se via como um autor utópico. Esse utopismo é assentado no messianismo judaico e na ideia de revolução de fundo marxista. Esses dois elementos seriam uma espécie de antídoto contra a ideia de um progresso histórico da humanidade que anda de mãos dadas com o historicismo. 
Para entender as relações entre messianismo e marxismo, é necessário entender qual o aspecto do pensamento de Karl Marx mais interessa a Benjamin. 
Na obra "TESES SOBRE A FILOSOFIA DA HISTÓRIA", a tese XIV [2] começa com uma citação de Karl Kraus, jornalista e poeta austríaco: "A origem é o alvo".

TESE IV
"A Origem é o Alvo."
Karl Kraus, Palavras em verso 

A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de "agoras". Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de "agoras", que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o actual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx. 

Nessa tese, Benjamin mostra parte de sua nostalgia com relação ao passado ou com relação à reconstrução do passado. Obviamente, essa reconstrução é impossível nos moldes do historicismo, em que impera o tempo homogêneo e vazio, semelhante ao funcionamento do aparato de um relógio.
Esse resgate do passado só é possível numa noção de tempo repleto de atualidades, repleto de "agoras", como se fosse uma espécie de encontro "espiritual" com algum membro, algum grupo ou algum acontecimento do passado. A ideia de progresso só permite enxergar a vitória das classes dominantes. Contra isso se faz necessário um retorno para uma condição pré capitalista, talvez um passado adâmico em que as forças espirituais não seriam comandadas pela brutalidade das forças materiais. Assim, a noção de luta de classes marxista vai permitir que os oprimidos entrem no teatro da história. 
Na tese XII [3], aparece claramente a ideia de que o sujeito do conhecimento histórico é a classe combatente e oprimida. 

TESE XII

"Precisamos da história, mas não como precisam dela os ociosos que passeiam no jardim da ciência." 
Nietzsche, Vantagens e desvantagens da história para a vida 

O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada durante algum tempo no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a socialdemocracia. Em três decênios, ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. Com isso, ela a privou das suas melhores forças. A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não dos descendentes liberados. 

Na visão de Benjamin, essa classe aparece na obra de Marx como a última classe escravizada, como a classe vingadora que, em nome de gerações de vencidos, leva até o fim a obra da libertação. Parece claro que essa classe é o proletariado. 
Politicamente, o anti-progressismo benjaminiano ataca a social democracia que, em termos gerais, coloca a conquista de bens materiais como sinal de melhoramento da humanidade. Todavia, esse  anti-progressivismo também respingará no marxismo, pelo menos no marxismo evolucionista. O frankfurtiano não concebe a revolução como o resultado "natural" ou "inevitável" do progresso econômico e técnico, mas como a interrupção de uma evolução histórica que conduz à catástrofe.
Assim, a ideia de revolução em Benjamin carrega consigo outras duas noções, além da noção de luta de classes, as noções de pessimismo e de choque/trauma. 
Sigmund Freud, por Max Halberstadt, em 1922
A noção de trauma é inspirada em Freud, pai da psicanálise. Superficialmente falando, um trauma tem um efeito posterior semelhante ao de uma experiência imediata, mas no nível inconsciente. Exemplificando, o ser humano é submetido a determinados traumas nas fases infantis, traumas que não produzem necessariamente choques nessas fases iniciais da vida, mas esses choques aparecem mais tarde, em fases mais adiantadas, causando profundo abalo na psicologia de alguém. 
A apropriação do trauma na concepção de história de Benjamin está na ideia de que as imagens históricas - vindas do passado, obviamente - ganham uma percepção de  concretude maior do que no tempo em que os acontecimentos realmente ocorreram. Tentando facilitar essa ideia, a atualidade do acontecimento fixado na contra memória é maior do que a atualidade do acontecimento em seu tempo real. Tudo isso, Benjamin chama de concretude histórica. Assim, a concretude histórica aparece quando presentificamos algo do passado numa rápida imagem, essa rápida imagem ganha uma concretude mais intensa do passado do que o passado teve na facticidade da história. Na tese V [4], é afirmado que a verdadeira imagem do passado perpassa velozmente. O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente no momento em que é reconhecido.

TESE V

A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido. "A verdade nunca nos escapará" — essa frase de Gottfried Keller caracteriza o ponto exato em que o historicismo se separa do materialismo histórico. Pois irrecuperável é cada imagem do passado que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela. 

O caráter nostálgico de Benjamin é reforçado pelo seu pessimismo. Esse pessimismo aparece na obra  "O surrealismo" de 1929, na qual é invocado um pessimismo revolucionário e não um pessimismo resignado, fatalista, conservador e reacionário o qual facilitará atitudes pré-fascistas. O pessimismo revolucionário está a serviço das classes oprimidas; sua preocupação não é simplesmente o declínio das elites, como quer certo tipo de marxista, mas esse pessimismo foca suas críticas no progresso técnico e econômico promovido e homenageado pela mentalidade capitalista. 
Nada parece mais ridículo aos olhos de Benjamin do que o otimismo dos partidos burgueses e da social democracia com relação à ideia de progresso. Contra esse otimismo sem consciência, inspirado pela ideologia do progresso linear, nosso autor descobre no pessimismo algo ativo, organizado e prático, algo inteiramente dedicado ao objetivo de impedir, por todos os meios possíveis, a chegada da catástrofe, encoberta pelo fascínio com relação ao progresso. O alvo, aqui, é bem claro: o fascismo. O fascismo leva às últimas consequências a combinação tipicamente moderna de progresso técnico e regressão social. Não é à toa que, na literatura, Benjamim tecerá críticas ao movimento futurista, fundado pelo italiano FILIPPO MARINETTI. O MANIFESTO FUTURISTA de 1909 exaltava as maravilhas tecnológicas, como bombas e tanques de guerra, e pregava a destruição de qualquer vestígio de monumentos históricos.
O pessimismo ativo de Benjamin está a serviço do criticismo. Esse criticismo permite melancolicamente perceber que o historicismo se identifica com os vencedores da história. Esses vencedores se tornam os donos do poder e, assim, a lógica perversa está completa, ou seja, o historicismo se identifica com os vencedores que são os detentores do poder. Na tese VII [5], é afirmado que não há um bem cultural que não tenha algum elemento de barbárie. Essa tese é um pouco longa e com citações muito específicas e com certo grau de erudição, mas vale a citação completa dessa tese. 

TESE VII

"Pensa na escuridão e no grande frio Que reinam nesse vale, onde soam lamentos." 
Brecht, Ópera dos três vinténs 

Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teólogos medievais, a acedia era o primeiro fundamento da tristeza. Flaubert, que a conhecia, escreveu: "Peu de gens devineront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage". A natureza dessa tristeza se tomará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o vencedor. Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo. 

Os vitoriosos participam de uma grande marcha triunfal, celebrada por cima daqueles que estão atirados no chão. Os vencedores não conseguem rememorar o passado sem que isso seja acompanhado de horror. Por isso, eles preferem olhar para o futuro e se agarrar na ideia de progresso. Assim, o progresso técnico não traz necessariamente consigo o progresso moral. 
Essa visão crítica, baseada em elementos de pessimismo e de melancolia, permitiram que Benjamin percebesse, mesmo que intuitivamente, as catástrofes que marcarão profundamente não só a história européia, mas também a humanidade. No texto "O Surrealismo”, Benjamin ironiza as "benfeitorias" realizadas pela empresa aérea Luftwaffe e pelo conglomerado químico I.G. Farben. A primeira infligiu profundos danos a várias cidades e populações europeias durante a Segunda Guerra Mundial. No mesmo período,  a Farben se destacaria pela fabricação do gás Ziklon B utilizado para racionalizar o genocídio. 

NOTAS

[1] Ver a apresentação de Michael Löwy explicando o seu próprio livro intitulado "Walter Benjamin, intérprete do capitalismo como religião". 
https://www.youtube.com/watch?v=gPsLrvhO3TE
[2] Sigo a tradução de Paulo Rouanet, 1985. 
[3] Sigo a tradução de Paulo Rouanet, 1985.
[4] Sigo a tradução de Paulo Rouanet, 1985.
[5] Sigo a tradução de Paulo Rouanet, 1985.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


BENJAMIN, Walter. Magia e técnica,  arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Editora brasiliense, São Paulo: SP, 1985.  (4a ed.)